Luana Raposo de Melo Moraes Aps

É o que muitas pessoas me perguntam quando digo que trabalho com vacinas contra o HPV (vírus do papiloma humano) seguido de uma expressão de dor desencadeada pela palavra “vacina” e a fotografia mental de uma agulha de 2 metros! De fato já existe uma, aliás, duas que estão disponíveis hoje para a vacinação no mundo todo, que por sua vez, foram muito criticadas devido a alguns de seus efeitos colaterais, apesar de sua inquestionável eficiência em proteger a população contra infecções por esse vírus (http://drauziovarella.com.br/mulher-2/a-seguranca-da-vacina-contra-hpv/). Mais importante do que efeitos indesejáveis (que até o chocolate tem!) a vacina comercializada hoje impede com que o vírus se instale no seu corpo e cause problemas bem maiores do que você imagina – câncer. Alguns tipos de vírus HPV, classificados como vírus de “alto risco” (HPV-16 e HPV-18 são os principais), são capazes de infectar a mucosa oral e a região dos órgãos sexuais (http://en.wikipedia.org/wiki/Oral_mucosa) e ali permanecer por longos períodos, anos ou décadas provocando lesões imperceptíveis a olho nu e que, dependendo da gravidade, podem progredir para algum tipo de câncer (http://en.wikipedia.org/wiki/Human_papillomavirus). Importante dizer que o vírus pode ser detectado a tempo através de um exame que a maioria das mulheres já ouviu falar: o “papanicolau”. Com ele se consegue identificar microscopicamente se há infecção ou não e estimar seu grau de severidade.

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Fonte: CDC-PHIL#9400

Bom, mas com que mesmo eu trabalho? Faço parte de uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Desenvolvimento de Vacinas (LDV) que há mais de 10 anos vem desenvolvendo uma vacina contra o HPV não para evitar, mas para tratar algum tipo grave de lesão ou câncer provocado pelo vírus que um dia se instalou por lá. Mas, para explicar como a vacina funciona, preciso explicar o que é câncer. Câncer nada mais é que um conjunto de células que se multiplicam de forma exacerbada e desorganizada. Toda célula tem um sistema que controla “ligando” ou “desligando” seu ciclo de divisão e que pode identificar um dano no DNA e interromper a multiplicação de uma célula caso ela tenha sido infectada (http://processosbiologicos.blogspot.com.br/2010/11/como-sabemos-interfase-e-um-periodo-de.html) O vírus por sua vez não se replica sozinho, ele necessita de uma célula para se multiplicar. No caso do câncer associado ao HPV, o vírus infecta a célula podendo, em casos menos frequentes, introduzir o seu material genético no nosso DNA. Quando isso acontece, são produzidas substâncias virais, nesse caso proteínas, que são capazes de “enganar” o sistema de controle e não “desligar” o ciclo celular provocando o crescimento exagerado de células que se aglomeram e formam os tumores. A principal proteína viral chama-se E7 e é produzida de forma constitutiva, isto é, continuamente, pelas células tumorais. Por esse motivo, a proteína E7 é um alvo comum para o desenvolvimento de terapias contra este tipo de câncer onde a estratégia é ensinar o organismo a considerá-la uma ameaça e assim combatê-la, matando junto com ela as células tumorais onde estão localizadas. E este é o objetivo principal da vacina contra o HPV do LDV: o tratamento de tumores já estabelecidos causados pela infecção por HPV-16 usando a proteína E7 como alvo.

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Fonte Wikipedia

A vacina terapêutica desenvolvida faz parte da categoria de vacinas de DNA e é baseada em um plasmídeo chamado pgDE7h. Plasmídeo é uma molécula pequena de DNA, dupla-fita, circular, encontrada em bactérias e independente do DNA cromossômico. Em geral os plasmídeos carregam genes associados à sobrevivência das bactérias, como a resistência a antibióticos, e outras características adicionais e não essenciais à bactéria – como se fosse um pen drive de um computador principal (http://pt.wikipedia.org/wiki/Plasm%C3%ADdeo). Graças ao avanço da biotecnologia hoje conseguimos inserir qualquer gene de forma simples e relativamente rápida nesses plasmídeos (http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gene_cloning-fr.svg). Vacinas de DNA nada mais são do que os próprios plasmídeos em solução que, quando injetados no músculo, entram nas células e utilizam sua estrutura para produzir a substância codificada pelo gene que você inseriu dentro deles. No caso da vacina pgDE7h, ela contém o gene da proteína E7 do HPV-16 mas ligeiramente modificado de modo que a proteína não interage mais com o ciclo celular. Isso faz com que o nosso organismo produza a E7 em grandes quantidades e dessa maneira estimule o sistema imune a combater as células que a contêm.

Em camundongos com tumores pré-estabelecidos, uma única dose da vacina estimulou de maneira forte e específica o sistema imune contra as proteínas virais e promoveu regressão tumoral total em 100% dos animais imunizados. Como parte do meu projeto de doutorado, a vacina está sendo testada em associação a quimioterapia – principal estratégia terapêutica contra o câncer hoje (além da cirurgia). Diferente da vacina, a quimioterapia não é específica para uma doença, ela mata qualquer célula que esteja em divisão causando danos diretamente no DNA celular. Por causa disso, possui muitos efeitos indesejáveis principalmente nos cabelos, pele, unhas e prejuízos mais graves em órgãos importantes como rins, pulmão e coração, além de náuseas, vômitos e diarréia. O objetivo então é associar a vacina com a quimioterapia na tentativa de diminuir a dose e consequentemente os efeitos adversos e inevitáveis provocados pelo tratamento quimioterápico com o mesmo efeito antitumoral, partindo de um quadro mais grave, com tumores bem maiores e simulando situações reais em que pacientes enfrentam um estágio terminal da doença.

Quem sabe um dia nosso sonho se realize e nossa pesquisa consiga beneficiar milhares de pessoas pelo mundo. Tomara…

LINKS EXTERNOS

Vacinação contra o Papiloma Vírus Humano (Wikia Virologia Básica)
Vídeo sobre vacinação contra o Papiloma Vírus