Beatriz Brito Viana

Imaginem o seguinte cenário: Você está em São Paulo ou Nova York – cidades com grande de diversidade de etnias – então, eu te desafio a descobrir a origem de alguém escolhido aleatoriamente na rua, apenas analisando a sua fisionomia.

Você se consideraria observador o suficiente pra responder corretamente a cidade de origem desta pessoa? Caso a resposta fosse precisa, eu diria que você é um gênio,  vidente ou tremendo azarão.  E quanto ao país? Talvez fosse mais fácil. Mas apesar de todas as dificuldades em determinar a nacionalidade, creio que a maioria de nós presumiria corretamente a origem étnica.

Com a globalização, é comum encontrarmos mesmo em ambientes pequenos, pessoas de diferentes origens. Todos temos traços que nos identificam, como um selo em uma carta. Não importa onde a carta esteja, se você olhar o selo saberá sua origem.

E se eu te dissesse que existe um mundo dentro de nosso, com essa mesma diversidade e características que os identificam entrem si?

Estou falando do “Fitoplâncton”, composto por organismos aquáticos microscópios. Eles povoam os mares e rios, lagos, represas. Resumidamente, o fitoplâncton é composto por microalgas e cianobactérias.

São organismos de extrema importância para a nossa existência, uma vez que são os produtores primários de toda uma cadeia alimentar.

Assim como nas grandes metrópoles com imensa, em um determinado corpo d’água, encontramos grande variedade deste microrganismos. Cada um possuirá características que nos dirão a qual família pertencem, e assim é possível classificá-los pela morfologia.

Algumas das características que observamos nesses microrganismos:
· São unicelulares ou coloniais
· Filamentosas ou globulosas
· Cor: dependendo da quantidade de pigmentos eles podem apresentar diferentes tons de verde, castanho, azul, amarelo.
· Formato das células: esféricas, fusiformes, formado de meia lua ou pireforme (formado de pera) e etc.
· Formado da colônia: esférica, estrela, plana, quadrática, etc.
· Mobilidade: Alguns são imóveis. Outros possuem acessórios que permitem a mobilidade, como flagelados. Alguns com 1,  2, 3 ou 4 flagelos, sendo do mesmo tamanho ou tamanhos diferentes.
· Ornamentação: Com espinhos ou sem espinhos. Espinhos grossos ou finos.  Só nos polos ou distribuídos ao redor.

fitoplancton

Assim como DNA humano, onde é possível determinar a identidade de uma pessoa, cada corpo d’água apresentará espécies exclusivas daquele ambiente, ás vezes raras, similares á microrganismos de outros ambientes, ao mesmo tempo que haverá espécies genéricas.

É interessante notar que existe uma relação ecológica entre as éspecies presentes, que pode ser prejudicada diante de alteração de fatores ambientais naturais ou causados pelo homem. Por exemplo, em casos de dano ambiental devido a processos de eutrofização, ou seja, adição de nutrientes, que podem favorecer o crescimento de alguns microrganismos em detrimento de outros.

Além das microalgas, encontramos outro grupo de microrganismos presentes em ambientais aquáticos, de  grande preocupação para fins de saúde pública. São as “Cianobactérias”, bactérias conhecidas também como “algas azuis” por apresentarem ficocianina que é um pigmento azul. O que a diferencia de uma bactéria “convencional” é o fato de realizarem fotossíntese.

Para fins de potabilidade, o Ministério da Saúde regulamenta através da Portaria 2914 de 2011, o controle de cianobactérias presentes na captação dos mananciais. Essa preocupação deve-se à possibilidade da presença  de cepas de cianobactérias produtoras de toxinas (cianotoxinas) com ação hepatotóxica ou neurotóxica.

Como o atendimento à legislação é obrigatório, as empresas de saneamento básico e agências reguladoras do país, empregam biólogos para atuarem na identificação e quantificação de  cianobactérias, através do método microscópico.

Já a identificação e quantificação de fitoplâncton permitem o estudo ecológico do corpo d’água e a gestão de processos de sistemas de abastecimento. As empresas de saneamento utilizam essas informações para melhoria de processos e como ferramenta para tomada de decisões.

É possível com este ensaio, avaliar a predominância de determinado microrganismo em um manancial, que pode atribuir algum significado sanitário de relevância.  A predominância de diatomáceas, por exemplo, pode causar o entupimento de filtros nas estações de tratamento de água, um problema físico. Já outros, podem atribuir odor, que sugere a predominância de um determinado grupo de microrganismos. Sabemos que algas da divisão Chlorophyta podem causar odor capim. Já a predominância de fitoflagelados pode causar odor peixe.

Existem poucos biólogos especializados na identificação taxonômica de fitoplâncton. Por se tratar de análise muito complexa e dependente da habilidade e precisão do biólogo, o treinamento costuma ser longo. Porém é uma atividade obrigatória para o cumprimento do controle da qualidade de represas.

Independentemente das dificuldades reais, o estudo de fitoplâncton se mostra no mínimo fascinante, ao contemplarmos tanta beleza e complexidade.

Referências bibliográficas:
Rodrigues, Luciana Luna Ruiz. Biodiversidade de cianobactérias e algas das represas Billings (Braço Taquacetuba) e Guarapiranga, SP, Brasil. Diss. Universidade de São Paulo, 2008.
SantAnna, Célia Leite. “Atlas de cianobactérias e microalgas de águas continentais brasileiras.”
da Silva Ferrão-Filho, Aloysio, Renato Molica, and Sandra MFO Azevedo. “Ecologia, ecofisiologia e toxicologia de cianobactérias.” Oecologia Brasiliensis 13.2 (2009).